Edifício JK e a visão para cidades mais resilientes
Quando falamos sobre o futuro das cidades, é comum imaginarmos novas edificações, sistemas tecnológicos inovadores e soluções construtivas ainda não testadas. Mas, a partir da minha trajetória como arquiteta e urbanista, cheguei à compreensão de que: um dos caminhos mais eficientes para cidades mais resilientes frente às mudanças climáticas está justamente naquilo que já está construído.
O ambiente construído, especialmente os edifícios históricos e os centros urbanos consolidados, desempenham um papel central nas estratégias de mitigação e adaptação climática. E o Conjunto Governador Kubitschek, mais conhecido como Edifício JK, em Belo Horizonte, é um exemplo emblemático dessa reflexão.
O Edifício JK: uma cidade dentro da cidade
Projetado por Oscar Niemeyer na década de 1950, a pedido de Juscelino Kubitschek e do empresário Joaquim Rolla, o Edifício JK nasceu com uma visão extremamente avançada para sua época. Ele foi concebido como um espaço de uso misto, integrando habitação, comércio, serviços, lazer e cultura em um único conjunto arquitetônico.
São dois edifícios perpendiculares, um de 36 e outro de 24 andares, contemplando mais de mil apartamentos e uma diversidade de tipologias que refletem um ideal de convivência, coletividade e diversidade social. Um conceito que pulsa até hoje e que continua sendo uma grande demanda no modo como projetamos e vivenciamos as cidades contemporâneas.
Tive a oportunidade de participar, como arquiteta urbanista, do grupo de trabalho do processo de tombamento do edifício, concluído em 2022. Esse processo foi, acima de tudo, uma chancela de algo que a cidade e seus moradores já reconheciam: a relevância histórica, cultural, arquitetônica e urbana do conjunto.
E destaco, o tombamento não deve ser entendido como um impedimento à transformação, mas sim como uma proteção contra a distorção. Ele preserva a identidade do edifício, sua volumetria, fachadas e relação com a cidade, mas ao mesmo tempo em que permite adequações internas essenciais para segurança, funcionalidade, conforto, eficiência energética, infraestrutura e sustentabilidade.
Preservar patrimônio não é olhar para trás e, sim, agir para um futuro com responsabilidade.
Requalificação urbana e mudanças climáticas
Cidades resilientes são aquelas capazes de se adaptar, resistir e se transformar diante de mudanças sociais, econômicas e climáticas. E essa resiliência passa, necessariamente, pela forma como lidamos com os edifícios existentes.
Reformar imóveis desocupados, promover retrofits em edificações abandonadas e requalificar áreas em centros urbanos são estratégias relevantes porque:
- reduzem deslocamentos diários;
- fortalecem a caminhabilidade;
- ativam o espaço público;
- promovem diversidade social;
- diminuem emissões de gases do efeito estufa;
- minimizam impactos socioambientais;
- contribuem para a minimização das ilhas de calor;
- reforçam a segurança urbana a partir do uso contínuo dos espaços.
O Edifício JK, como exemplo, está inserido no hipercentro de Belo Horizonte, em um território já servido por infraestrutura, transporte, equipamentos culturais e serviços. Valorizá-lo e qualificá-lo é potencializar tudo aquilo que a cidade já oferece, com menos impacto ambiental.
A experiência prática da Casa Zero
Nesse contexto, a atuação da Casa Zero foi especialmente significativa. Tivemos a oportunidade de realizar duas reformas de apartamentos no Edifício JK. Experiências que reforçaram minha convicção de que essa atuação no setor construtivo é um caminho essencial para cidades mais sustentáveis.
Mais do que reformar imóveis, essas intervenções representam a ativação do centro urbano, trazendo mais pessoas para viver a cidade. Além disso, quando docente, levei dezenas de estudantes para apresentar a história do edifício JK e sua inserção no Conjunto Urbano da Praça Raul Soares. Foi uma experiência extremamente enriquecedora, permitindo que futuros arquitetos, urbanistas e engenheiros compreendam, na prática, a relação entre arquitetura, patrimônio e cidades.
Conhecer o espaço é fundamental para viver, projetar e empreender melhor.
Quando falamos de mitigação e adaptação às mudanças climáticas, não podemos ignorar o papel da arquitetura, do urbanismo, da construção civil, dos negócios alinhados aos pilares ESG e das instituições educacionais na formação de uma cultura mais consciente.
O futuro das cidades não começa do zero. Ele começa com decisões responsáveis sobre o que já existe. Quero demonstrar, com esse recorte urbano, que é possível unir história, inovação e sustentabilidade para construir cidades mais resilientes.
Acesse, no link, uma entrevista que participei falando exatamente sobre este tema:
















