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As escolas são um ensaio da sociedade que queremos construir. São nelas que os saberes e valores se materializam, não apenas no conteúdo, mas nos espaços, nas rotinas e nas experiências cotidianas. Quando arquitetura, educação e natureza se conectam de forma intencional dentro de uma comunidade escolar, o resultado vai além do aprendizado formal: formamos cidadãos mais conscientes sobre “o que você quer ser quando crescer”.

Nesse cenário, a educação ocupa um papel estruturante frente às mudanças climáticas, justamente por atuar na base da formação social. Ainda assim, os dados revelam um paradoxo preocupante. Segundo o MapBiomas (2024), 4 em cada 10 escolas no Brasil não possuem áreas verdes associadas ao seu entorno. Somam-se a isso estudos referenciados pela ONU, o levantamento de que crianças urbanas passam cerca de 90% do tempo em ambientes fechados, afastadas de experiências fundamentais de contato com a natureza e da construção de vínculos ecológicos.

Se a escola não integra, de forma harmoniosa, natureza e espaço construído, onde e como as crianças experimentam o meio ambiente no seu cotidiano?

A Política Nacional de Educação Ambiental, atualizada em 2024, aponta caminhos relevantes ao abordar temas como mudanças climáticas, preservação da biodiversidade e desastres socioambientais. Mas a questão permanece, e me instiga novamente: Como tudo isso pulsa ou deveria pulsar, de fato, no cotidiano da escola, nos espaços que devem educar?

Com base na minha experiência no setor educacional e como educadora, isso só acontece quando os currículos, programas e práticas são contínuos e integrados. Quando as crianças aprendem, na prática, sobre água, resíduos, energia, biodiversidade, a ecologia no dia a dia. E, digo mais, quando a própria gestão da escola, sua arquitetura, construção e design reforçam aquilo que se ensina.

Quando corredores, pátios, salas de aula, áreas externas e sistemas construtivos refletem escolhas conscientes, a ecologia deixa de ser discurso e passa a ser experiência. A Ecologia Integral se materializa em:

  • Gestos do dia a dia
    Como separar resíduos, economizar água, valorizar áreas verdes, incentivar a mobilidade ativa e ensinar, pelo exemplo, o cuidado com os espaços comuns.
  • Decisões de gestão
    Na escolha de materiais mais sustentáveis, na priorização da ventilação e iluminação naturais, no uso responsável da energia e na criação de ambientes que promovem bem-estar e pertencimento.
  • Práticas coletivas
    Em hortas escolares, projetos interdisciplinares, mutirões comunitários, ações de educação ambiental e experiências que conectam estudantes, educadores e território.

Segundo o arquiteto, urbanista e teórico Christopher Alexander, o ambiente construído não é neutro: ele molda as relações e a forma como as pessoas vivem, mesmo quando essa influência não é percebida conscientemente. Essa definição fundamenta a compreensão da arquitetura como agente pedagógico.

Formação em cidadania planetária

A educação, para além do currículo escolar, passando pela gestão administrativa e pedagógica, reverbera no território e pode se tornar uma ferramenta real de transformação social e ambiental. A educação socioambiental não deve ser apenas conteúdo, devendo ser vivida no espaço físico e na cultura da escola.

Alguns impactos são claros:

  • Desenvolvimento integral das crianças
    Espaços integrados à natureza favorecem concentração, reduzem ansiedade e estresse, fortalecem empatia, cooperação e comunicação, além de estimular a criatividade por meio de experiências sensoriais.
  • Justiça climática nos territórios
    Mais áreas sombreadas e vegetação associada às escolas ajudam a reduzir temperatura, melhorar o microclima local e proporcionar mais bem-estar, especialmente em ambientes urbanos.
  • Conexão com a biodiversidade
    Aprender sobre interdependência ecológica, fortalecer a biodiversidade urbana e criar vínculos reais com a vida que sustenta o território.
  • Engajamento da comunidade escolar
    Famílias mais envolvidas, conhecimento que ultrapassa os muros da escola, fortalecendo o coletivo.

Quando o currículo conecta essas dimensões e é orientado pela Ecologia Integral, ele cumpre plenamente sua função. Nesse contexto, cada prática pedagógica e decisão de gestão contribui para a formação de sujeitos conscientes, ao mesmo tempo em que a arquitetura, os espaços educativos, influenciam diretamente o bem-estar, o desempenho acadêmico e o desenvolvimento criativo dos estudantes, tornando-se exemplos vivos e cotidianos de enfrentamento da crise climática.

Green School de Bali: imersão da Casa Zero

Representando a Casa Zero, tive a oportunidade de vivenciar esse conceito durante uma imersão na Green School de Bali, na Indonésia, em 2025. Em meio a uma paisagem tropical, cercada por florestas, rios e arrozais, validei de forma profunda como a educação, ecologia e arquitetura podem se conectar de maneira prática e significativa.

Na Green School, a ecologia não é um tema complementar: é estruturante. Está presente em todas as disciplinas e práticas escolares, integrando aprendizagem experimental, projetos interdisciplinares e resolução de problemas reais. A escola combina referências das abordagens Montessori e Waldorf com uma proposta educacional própria, baseada em experiências práticas e integração com o meio ambiente.

Para tornar a proposta mais clara, apresento exemplos práticos de projetos aplicados:

  • Aprender a partir de  problemas reais
    Os próprios alunos desenvolveram um biodiesel 100% a partir da reciclagem do óleo de cozinha usado pelos restaurantes da comunidade e o transformaram em combustível que abastece o ônibus escolar da turma. Uma necessidade concreta do cotidiano se transformou em aprendizado, impacto social e experiência prática. Em outro, os estudantes projetam e constroem bicicletas de bambu, conectando técnicas da engenharia e do design, em um processo que integra a responsabilidade ambiental da mobilidade limpa.

fotografia: UNESCO Green Citizens

  • Aprender em comunidade
    Em um campus de aproximadamente 8 hectares, crianças e adolescentes aprendem colocando a mão na massa e participando ativamente da construção da própria escola, desde maquetes, escolha de materiais, tratamento do bambu e uso de tintas ecológicas, até a gestão coletiva dos espaços. Tudo acontece com forte envolvimento das famílias, fortalecendo uma comunidade viva e em constante transformação.

Esse é o tipo de escola, cidade e sociedade que acredito. Essa experiência reforça minha convicção de que escolas podem ser muito mais do que espaços de ensino formal: elas podem ser centros vivos de uma cultura ecológica, da prática da educação socioambiental e de resiliência climática.

Veja a seguir um pouco da infraestrutura da Green School:

Assista abaixo a nossa playlist no YouTube que mostramos um pouco mais sobre como foi essa experiência:

Referências:

BRASIL. Política Nacional de Educação Ambiental – Lei n. 9.795, de 27 de abril de 1999, com alteração pela Lei n. 14.926, de 17 de julho de 2024. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2024/lei/L14926.htm . Acesso em: 03 fev. 2026. 

ALANA. Pesquisa Verde nas Escolas: diagnóstico da presença de áreas verdes nas escolas brasileiras. Disponível em: https://alana.org.br/pesquisa-verde-nas-escolas/#:~:text=A%20maior%20parte%20das%20escolas,lotes%20(37%2C4%25) r. Acesso em: 03 fev. 2026.

MAPBIOMAS. Nota técnica sobre vegetação e escolas no Brasil. São Paulo: MapBiomas, 2024. Disponível em: https://brasil.mapbiomas.org/wp-content/uploads/sites/4/2024/11/Nota_Tecnica_Vegetacao_Escolas-25-11-2024.pdf . Acesso em: 03 fev. 2026.

CAOS PLANEJADO. Christopher Alexander: o legado de um visionário. Disponível em: https://caosplanejado.com/christopher-alexander-o-legado-de-um-visionario/r. Acesso em: 03 fev. 2026.

A biofilia — termo derivado do grego bios (vida) e philia (amor, afinidade) — refere-se à conexão intrínseca do ser humano com a natureza. Na arquitetura e no design, esse conceito se traduz em soluções que aproximam as pessoas dos elementos naturais de forma sensível e orgânica. Foi a partir dessa perspectiva que a Casa Zero conduziu a consultoria para a reforma da Escola Infantil Jardim, unidade Sion, em Belo Horizonte.

Desenvolver um projeto sustentável e eficiente vai muito além do uso de produtos importados ou de soluções que se apresentam como ecológicas, mas não cumprem essa promessa. Trata-se de pensar de maneira estratégica e responsável: buscar alternativas que conciliem conforto, funcionalidade e custo-benefício, ao mesmo tempo em que se priorizam materiais de menor impacto ambiental, como a tinta mineral de terra.

Entre as soluções propostas, destacam-se os materiais com um ciclo de vida de menor impacto e com componentes menos sintéticos e mais naturais; e um paisagismo que amplia as oportunidades de contato com o verde. Ambos favorecendo a exploração sensorial.

Em entrevista, a diretora e sócio-fundadora da instituição, Letícia Martins, compartilhou sua experiência. O primeiro contato com a Casa Zero se deu por meio de Luiza, diretora e fundadora da empresa, que foi mãe de uma aluna da escola. Ao conhecer a proposta da consultoria e compreender como a sustentabilidade poderia transformar tanto o espaço educacional quanto a qualidade de vida das crianças, Letícia optou imediatamente pela parceria.

Ela ressalta que, após a consultoria, percebeu uma economia significativa. Antes, acreditava que inserir a natureza na escola exigiria grandes áreas gramadas e extensos recursos de manutenção. A Casa Zero demonstrou, porém, que a biofilia vai muito além disso, integrando elementos como ventilação cruzada e iluminação natural, que se tornaram protagonistas no projeto.

Principais soluções adotadas:

  • Piso drenante de seixos naturais – estímulo à exploração sensorial.
  • Uso de painel vertical – reuso de telas já existentes na escola.
  • Cobogó de solo-cimento – permeabilidade visual e ambiental, contribuindo também para a ventilação.
  • Paisagismo – ampliação do acesso das crianças ao verde.
  • Tinta mineral de terra – material sustentável de alta qualidade, com tonalidade que remete à terra.
  • Materiais naturais em substituição aos sintéticos – maior estímulo à interação das crianças com os espaços.
  • Pintura lúdica – recurso pedagógico que enriquece a experiência sensorial e criativa.

A seguir algumas imagens do projeto finalizado e um vídeo que mostra mais detalhes dessa consultoria:

Fotografias: Juliana Berzoine