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Antes de tudo, é importante conhecermos um dos principais pensadores da atualidade ligado à causa dos Povos Originários.

Ailton Krenak é líder indígena, ambientalista, filósofo, poeta, escritor brasileiro e Imortal da Academia Brasileira de Letras e aborda questões essenciais como o cuidado com o meio ambiente e a relação entre as pessoas com a Terra. De etnia Krenak que habitam às margens do Rio Doce, ele manifesta como a água, o solo são elementos vitais do planeta e que a nossa relação com a Terra é crucial. Ele critica a sociedade do consumo, a busca por soluções superficiais e nos convida a ver e agir para criar um futuro mais justo e equilibrado.

Krenak publicou através da Academia Brasileira de Letras uma trilogia provocante de livros — Ideias para adiar o fim do mundo (2019), A vida não é útil (2020), Futuro ancestral (2022)  — que foram baseadas em palestras e entrevistas que criticam o modo de vida ocidental, o consumismo e a separação entre humanidade e natureza, e acabam propondo uma visão, como a dos povos indígenas, de conexão com a terra. Um dos trechos que mais traduz a importância de conversarmos e passarmos esses saberes para as futuras gerações, é quando ele fala:

“Essa liberdade que tive na infância de viver uma conexão com tudo aquilo que percebemos como natureza me deu o entendimento de que eu também sou parte dela. Então, o primeiro presente que ganhei com essa liberdade foi o de me confundir com a natureza num sentido amplo, de me entender como uma extensão de tudo, e ter essa experiência do sujeito coletivo.” — Krenak, Ailton. Futuro Ancestral.

Os saberes e a arquitetura. Onde se conectam?

Trazendo a reflexão para a arquitetura, a integração dos saberes dos povos originários às práticas arquitetônicas e urbanas contemporâneas permite reorientar as cidades para modelos regenerativos, capazes de responder à crise climática com soluções adaptadas ao território, de baixo impacto e socialmente integradas.

A crescente intensificação dos impactos das mudanças climáticas sobre os territórios urbanos impõe a necessidade de revisão dos modelos convencionais de planejamento e produção das cidades. Nesse contexto, a integração entre conhecimento técnico contemporâneo e saberes tradicionais dos povos originários emerge como uma estratégia relevante para a construção de cidades mais resilientes, adaptativas e ambientalmente equilibradas.

Os povos originários desenvolveram, ao longo de séculos, sistemas de ocupação e manejo do território baseados na observação dos ciclos naturais, na adaptação às condições climáticas locais e no uso sustentável dos recursos. Esses conhecimentos constituem um repertório consistente de soluções que dialogam diretamente com abordagens contemporâneas voltadas à sustentabilidade, como as Soluções Baseadas na Natureza (SbN), ao promoverem a integração entre infraestrutura, ecossistemas e bem-estar humano.

No campo da arquitetura e do urbanismo, essa relação se expressa por meio da incorporação de estratégias bioclimáticas, uso de materiais locais de baixo impacto ambiental e desenho sensível ao território. Elementos como ventilação natural, sombreamento, adaptação ao relevo e integração com a vegetação demonstram como práticas construtivas tradicionais podem contribuir para a redução da demanda energética e para o aumento do conforto ambiental nas edificações e espaços urbanos.

Além disso, os sistemas tradicionais de manejo da água, amplamente presentes em diferentes culturas originárias, oferecem referências importantes para o enfrentamento de desafios urbanos contemporâneos, como enchentes, escassez hídrica e degradação ambiental. A valorização de estratégias que favorecem a infiltração, retenção e uso sustentável da água se alinha a abordagens como drenagem urbana sustentável e infraestrutura verde, fundamentais para a adaptação climática das cidades — outro aspecto central refere-se à lógica de uso e regeneração dos bens naturais.

Diferentemente de modelos extrativos, os saberes tradicionais se baseiam em princípios de equilíbrio, diversidade e regeneração, que podem orientar práticas urbanas mais sustentáveis, incluindo sistemas agroflorestais, recuperação de áreas degradadas e promoção da biodiversidade em contextos urbanos.

Importante destacar que a incorporação desses conhecimentos deve ocorrer de forma ética, respeitosa e colaborativa, reconhecendo os povos originários como detentores de saberes legítimos e protagonistas nos processos de construção de soluções. A adoção de abordagens participativas e o fortalecimento da governança multinível são fundamentais para garantir que essa integração ocorra de maneira justa, evitando processos de apropriação indevida ou descontextualização dos conhecimentos tradicionais.

Nesse sentido, a articulação entre saberes tradicionais e conhecimento técnico-científico amplia a capacidade de resposta das cidades frente à crise climática, contribuindo para o desenvolvimento de soluções territorializadas, de baixo impacto e socialmente inclusivas. Essa integração representa não apenas uma oportunidade, mas uma diretriz estratégica para a formulação de políticas públicas, projetos urbanos e iniciativas voltadas à resiliência climática.

Promover o reconhecimento e a valorização dos saberes dos povos originários no campo da arquitetura e do urbanismo constitui um passo fundamental para a transição de modelos urbanos convencionais para abordagens mais regenerativas, capazes de conciliar desenvolvimento, conservação ambiental e justiça social.

Os principais conceitos que você precisa saber:

Arquitetura Vernacular

Arquitetura baseada em conhecimentos tradicionais locais, construída com materiais disponíveis no território e adaptada às condições climáticas, culturais e ambientais. Ligada diretamente aos saberes territoriais, incorporando soluções passivas de conforto e baixo impacto ambiental.

Referência:
Oliver, Paul (1997). Encyclopedia of Vernacular Architecture of the World

Arquitetura Bioclimática

Abordagem projetual que utiliza as condições climáticas locais (sol, vento, umidade, relevo etc.) para garantir conforto térmico e eficiência energética, reduzindo a necessidade de sistemas artificiais. Conecta diretamente técnicas tradicionais com desempenho ambiental.

Referência:
Olgyay, Victor (1963/2015). Design with Climate: Bioclimatic Approach to Architectural Regionalism 

Bioconstrução

Uma abordagem construtiva que utiliza materiais naturais, locais e de baixo impacto ambiental, aliada a técnicas que buscam harmonia com o meio ambiente. Envolve o uso de terra crua, madeira, fibras naturais e outros insumos não industrializados ou de baixo processamento, integrando princípios de arquitetura bioclimática. Nas palavras de Johan van Lengen é uma relação de três fatores a considerar: o clima, os materiais e modo de viver.

Referência:
Van Lengen, Johan. (2014) Manual do Arquiteto Descalço.

Soluções Baseadas na Natureza (SbN)

Ações que utilizam processos naturais para enfrentar desafios sociais, como mudanças climáticas, segurança hídrica e saúde urbana, gerando benefícios ambientais, sociais e econômicos. É o principal elo entre saberes tradicionais e políticas públicas contemporâneas.

Referência:
International Union for Conservation of Nature
IUC N (2016). Nature-based Solutions Framework

Infraestrutura Verde

Rede planejada de áreas naturais e semi-naturais (parques, corredores ecológicos, áreas permeáveis) que fornecem serviços ecossistêmicos nas cidades. Materializa as SbN no espaço urbano e dialoga com práticas tradicionais de uso do território.

Referência:
European Commission
European Commission (2013). Green Infrastructure Strategy

Dia dos Povos Originários

No dia 19 de abril, comemoramos o Dia dos Povos Originários. Nos nossos perfis em nossas redes, trouxemos um pouco desse debate em um post post inspirador onde indicamos perfis essenciais para entender e acompanhar essa importante causa:

 

Perfis:

Povos tradicionais
COIAB
Povos Indígenas do Brasil
Hutukara Associação Yanomomi
ANMIGA
Mupoiba